História de Lavre

Não se conhecendo melhor a sua origem, se ainda proveniente do período de domínio islâmico, se já resultante do processo de conquista cristã, Lavar (designação que o povoado tinha na idade média) desenvolveu-se em virtude da morfologia do lugar, ponto mais elevado junto a uma ribeira e com boas condições defensivas, abarcando enorme paisagem para sul, vertente de origem das principais ameaças árabes.

Segundo o historiador Jorge Fonseca, existia, já antes do primeiro foral exarado para esta povoação, uma construção defensiva, a torre de Lavar, o que confirma as qualidades estratégicas do local para fins de manutenção da soberania cristã dos territórios que lhe ficavam a norte. Refere ainda este autor que a história de Lavre começa com 3 atos legais de D. Dinis:

– o primeiro foral, de 13 de Fevereiro de 1304;

– a concessão de território para o novo concelho, cedido pelo povo de Montemor-o-Novo, em 27 de Março do mesmo ano;

– o foral de 11 de Fevereiro de 1305.

No citado foral de 1304, primeiro documento que estabelece os direitos e deveres dos habitantes de Lavar, D. Dinis usa e reforça os mesmos privilégios que havia estabelecido para Évora e Montemor, isentando os moradores da vila de participarem nas expedições contra os muçulmanos. Assegura também o direito à propriedade daqueles que, vivendo em Lavar, tivessem nos seus arredores alguns terrenos, numa altura em que era usual ter que se viver numa determinada terra e cultivá-la para não perder o direito a ela.

Pouco mais de cem anos volvidos sobre estes forais, o povoamento de Lavar parece não ser o esperado, pelo que D. João I decide entregar a concessão da vila ao alemão Lamberte de Orques, altura em que surge a primeira descrição mais pormenorizada da vila, em que se realçam as qualidades dos solos para lavrar e das terras para criar gado, bem como a existência de inúmeras matas e ribeiros.

Não são, no entanto, os alemães que vão conseguir povoar a vila conforme os desejos régios, pelo que, na segunda metade do século XV a vila e a respetiva jurisdição seriam entregues, sucessivamente, a Galiote Pereira, a Vasco de Antas e ao filho, António de Antas e, finalmente, a Fernão Martins Mascarenhas.

A primeira referência ao atual topónimo é feita em 1475, aquando de uma doação de uma terra de propriedade régia a Rui de Ceita, que nesse documento é chamado de «Senhor de Lavre».

Numa altura em que a população de Lavre rondaria os 110 fogos, entre 25 na vila e 85 nos campos em seu redor, D. Manuel I decreta novo foral para a vila, eliminando um conjunto de deveres da população para com os antigos senhores, e definindo que os terrenos que estavam ao abandono em redor da povoação seriam dados em sesmaria para que lá fossem feitas hortas, vinhas e olivais e construídas casas para os proprietários.

Neste período a vila tornou-se donataria dos Mascarenhas, mantendo-se assim durante vários séculos até à destituição e condenação à morte do Duque de Aveiro, seu último senhor, que foi implicado no atentado contra o Rei D. José, altura em que Lavre voltou à posse da coroa.

Os limites do concelho de Lavre albergavam então uma área de cerca de 280km2, sendo constituído por duas paróquias:

– Nossa Senhora da Assunção;

– São Lourenço.

A primeira, com sede correspondente à atual paróquia de Lavre, era mais extensa e mais populosa, compreendendo a vila de Lavre e uma área rural em seu redor constituída por 79 herdades e 360 pequenas propriedades.

A segunda paróquia era bastante reduzida, ocupando a parte ocidental da atual freguesia do Ciborro, zona norte da atual freguesia de Foros de Vale Figueira e parte sul da freguesia de Lavre, não tendo qualquer núcleo urbano, mas congregando 236 paroquianos que estavam distribuídos pelas 23 herdades que a constituíam.

Conforme refere a historiadora Teresa Fonseca, as “(…) maiores riquezas do concelho eram extraídas da terra e consistiam no vinho, na produção cerealífera (trigo, centeio, cevada), na madeira de pinho e algum azeite.”

Refere ainda a mesma autora que a ribeira de Lavre, apesar de correr apenas no Inverno, permitia irrigar e fertilizar as margens, alimentar 11 moinhos e alimentar alguma população que ali pescava picões e robalos.

No ano de 1758, a população do concelho era de 1500 habitantes, residindo 1264 na paróquia de Nossa Senhora da Assunção e, destes, apenas 400 no interior do perímetro urbano da vila, constituída então pelas Ruas de Avis, do Norte, das Parreiras, da Estalagem, dos Celeiros, de São Pedro, de Santarém, da Igreja, do Poço, da Bica, os Outeiros das Carrilhas e da Igreja, e, finalmente, a Praça.

Este levantamento demográfico é de particular importância, tendo em conta que diz respeito a uma data apenas 3 anos posterior ao grande terramoto de 1755 que, segundo diz a sabedoria popular e confirma Túlio Espanca, no seu Inventário Artístico de Portugal, terá arrasado grande parte da Vila, tendo sido, “sem dúvida, a terra mais afetada pelo sismo em toda a Província do Alentejo.”

Em 1836, durante o processo de reforma administrativa liberal, o termo de Lavre viria a ser reintegrado no de Montemor-o-Novo, caindo um concelho que durou 500 anos, embora sempre sem conseguir um nível de autonomia e independência suficiente em relação a Montemor, onde se concentrou sempre, durante estes 5 séculos, grande parte do poder económico e judicial que governava a Vila.

Do período do Estado Novo não conseguimos obter muitos factos históricos sobre Lavre mas, se apreciarmos a obra de José Saramago, Levantado do Chão, romance histórico escrito em Lavre em finais da década de 70 do século passado e relativo à vida na terra no período da ditadura, compreendemos que era a típica vila rural, onde se concentrava a população abastada, que detinha as grandes herdades em redor da pequena urbe, bem como o comércio e os artesãos e, finalmente, alguma população mais pobre, dependente do sazonal trabalho agrícola ou dos empregos como criados nas casas ricas.

Em 1979, segundo o articulado da circular n.º 12/79 da Direcção-Geral de Acção Regional e Local, a área da freguesia era de 26.450 hectares, altura em que o concelho de Montemor-o-Novo estava apenas dividido em 6 freguesias. Com as alterações em matéria de ordenamento do território surgidas em 1988, a antiga freguesia de Lavre foi dividida em três, dando origem às novas freguesias de Cortiçadas de Lavre e de Foros de Vale Figueira, mantendo-se em Lavre a sede da freguesia original.

Anexo I – Foral de 1304

Anexo II – Foral de D. Manuel I de 1520

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